Entrevista – Saúde Gaúcha https://www.saudegaucha.com Informação para gestores e profissionais de saúde. Thu, 13 Jun 2019 19:57:25 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=5.1.1 https://www.saudegaucha.com/wp-content/uploads/2018/10/Saúde-Gaúcha-Favicon-2-100x100.png Entrevista – Saúde Gaúcha https://www.saudegaucha.com 32 32 Entrevista com Jacira Conceição dos Santos, sobre os desafios dos nutricionistas na atualidade https://www.saudegaucha.com/entrevista/nosso-objetivo-e-ajudar-as-pessoas-a-terem-um-comportamento-alimentar-adequado/ https://www.saudegaucha.com/entrevista/nosso-objetivo-e-ajudar-as-pessoas-a-terem-um-comportamento-alimentar-adequado/#respond Fri, 07 Dec 2018 18:25:13 +0000 https://www.saudegaucha.com/?p=890 A partir de hoje (7), nutricionistas do Rio Grande do Sul estarão reunidos no “1º Encontro de Nutrição do CRN-2” e no “2º Me formei, e agora?”, que acontecem no Centro Universitário Metodista IPA (Rua Coronel Joaquim Pedro Salgado, 80). Em entrevista ao saudegaucha.com, a presidente do Conselho Regional de Nutricionistas 2ª Região (CRN-2) Jacira […]

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A partir de hoje (7), nutricionistas do Rio Grande do Sul estarão reunidos no “1º Encontro de Nutrição do CRN-2” e no “2º Me formei, e agora?”, que acontecem no Centro Universitário Metodista IPA (Rua Coronel Joaquim Pedro Salgado, 80). Em entrevista ao saudegaucha.com, a presidente do Conselho Regional de Nutricionistas 2ª Região (CRN-2) Jacira Conceição dos Santos destaca a importância da especialização dos profissionais, com foco em nichos de atuação. Ela manifesta contrariedade ao Projeto de Lei 10981/2018 – que propõe alterações na Lei 8.234/91 de regulamentação da profissão de Nutricionista – que daria a médicos nutrólogos e endocrinologistas a prerrogativa de prescrever dietas. Para a presidente, há muita informação desencontrada nas redes sociais, com “promessas milagrosas” de emagrecimento, e o nutricionista é o profissional adequado para orientar a alimentação correta de acordo com o que a ciência recomenda.

saudegaucha.com – Quais são os resultados esperados com os eventos?
Jacina Conceição dos Santos – Esse é o primeiro encontro que fazemos com essa abordagem de temas técnicos. Normalmente os conselhos fazem essas atividades para divulgar seus resultados, e ações de representações. Historicamente, todos os conselhos desenvolvem uma interlocução com seus profissionais, mas os tempos estão mudando. Hoje sentimos a necessidade de realizar uma educação continuada com os profissionais, baseada na evolução de mercado, e dos novos nichos que surgem. Muitas vezes as próprias instituições formadoras não conseguem acompanhar, então nosso conselho, enquanto instituição que tem como competência orientar e fiscalizar os profissionais, deve desenvolver meios e instrumentos para esclarecer conduta profissional adequada.

saudegaucha.com – Quais serão os temas mais importantes da programação?
Jacina Conceição dos Santos – Serão as novas ferramentas para a atuação do profissional, de modo que ele se destaque e possa apresentar diferencias no seu trabalho, por meio de conhecimentos e atividades complementares. São conhecimentos além do saber especializado que o nutricionista tem, como o tema que abrirá o evento, tratando das ferramentas para a abordagem do comportamento alimentar. O objetivo é podermos avaliar e intervir para ajudar as pessoas a terem um comportamento alimentar adequado, porque muitas vezes a questão foge do que costumamos dizer de força de vontade ou capricho para fazer a alimentação que o nutricionista sugere. Existem ferramentas desenvolvidas e cientificamente comprovadas que podem alterar o comportamento alimentar. A área de atuação do nutricionista é o comportamento alimentar. Quando é identificado que esse comportamento é afetado por algum distúrbio da área psicológica da pessoa, então ele pede para pessoa também consulte com um psicólogo, ou um psiquiatra. Teremos uma técnica americana (Mindful Eating), além de Coaching, que pode ser usado em várias áreas da vida do pessoal, e o método cognitivo comportamental, que é o mais tradicional.

“O objetivo é podermos avaliar e intervir para ajudar as pessoas a terem um comportamento alimentar adequado, porque muitas vezes a questão foge do que costumamos dizer de força de vontade ou capricho para fazer a alimentação que o nutricionista sugere.”

saudegaucha.com – Quais seriam as atividades que mais teriam relação com a temática principal do evento?
Jacina Conceição dos Santos – É a atividade de nutrição clínica, em que o profissional orienta a alimentação de uma forma mais específica podendo ser, também, para a coletividade, como por exemplo grupos em que se desenvolvem atividades básicas de saúde, como hipertensos e diabéticos. Temos que usar essas ferramentas de manejo grupos, mostrar se há desvios de comportamento que podem ser melhorados com essas técnicas.

saudegaucha.com – Qual é o principal desafio na atualidade da atuação do nutricionista?
Jacina Conceição dos Santos – Como ocorre em toda profissão, a competição é bem mais intensa que 5 ou 10 anos atrás. O nutricionista deve buscar especialização. Com a formação básica, com a formação generalista ele pode atuar em várias áreas como numa escola infantil, no que chamamos de instituição de longa permanecia de idosos, numa empresa gerenciando a produção de refeições. É bastante vasto o leque de conhecimento que o nutricionista tem na universidade que lhe permite uma atuação básica. Depois da formação, o profissional deve buscar a especialização seja na área de planejamento, gerenciamento, em áreas clínicas – doenças crônicas, oncologia, entre outras. O esporte também é muito procurado pelos nutricionistas. Todos esses exemplos requerem especialização. O profissional sai da faculdade habilitado para atuar em diferentes áreas, mas ele tem que ter o foco no que mais se identifica. Um exemplo é a área clínica, que é um atendimento individualizado, e é a grande preferência dos nutricionistas. Como órgão fiscalizador, o objetivo do conselho é proteger a saúde da população através de um atendimento correto pelo profissional. Por isso é tão importante a função orientadora, porque o objetivo final é a saúde da população. Em julho foi lançado um novo marco regulatório na área de prescrição de suplementos, tanto suplementos vitamínicos minerais, como fitoterápicos, e os chamados nutracêuticos, que são as substancias isoladas de alimentos, como ômega 3, resveratrol, betacaroteno. Assim, houve uma modificação grande em relação às quantidades de prescrição, do que é de restrição médica. Isso também é algo que está requerendo atenção e teremos uma palestra especialmente sobre a atualização esse tema legal.

“Como ocorre em toda profissão,a competição é bem mais intensa que 5 ou 10 anos atrás. O nutricionista deve buscar especialização.”

saudegaucha.com – Qual a posição do Conselho sobre o Projeto de Lei 10981/2018, que propõe alterações na Lei 8.234/91, que regulamenta a profissão de Nutricionista?
Jacina Conceição dos Santos – Somos totalmente discordantes desse PL. O médico não tem capacitação para elaborar um plano alimentar. O médico nutrólogo e o endocrinologista podem fazer a prescrição de dietoterápica, que são a quantidade de nutrientes que a dieta tem: dizer quantos gramas de proteína, sódio, cálcio ou ferro aquele individuo precisa, baseado em exames de diagnóstico. Agora, transformar esses nutrientes em comida e estabelecer quais os componentes adequados no café da manhã, almoço, jantar, isso o médico não sabe fazer, não aprende. Isso é o nutricionista que estuda durante os quatro anos de sua formação: transformar as necessidades nutricionais em alimento, em comida no prato.

“Agora, transformar esses nutrientes em comida e estabelecer quais os componentes adequados no café da manhã, almoço, jantar, isso o médico não sabe fazer, não aprende. Isso é o nutricionista que estuda durante os quatro anos de sua formação: transformar as necessidades nutricionais em alimento, em comida no prato.”

saudegaucha.com – Em tempos de acesso grande a meios digitais e a proliferação de notícias falsas, o que mudou na atuação do profissional de nutrição?
Jacina Conceição dos Santos – Há muitas informações desencontradas, muitas promessas milagrosas. O público busca alguma solução mágica, algo que está no ideário coletivo. Dizem “Eu engordei e quero emagrecer; quero tomar um chá, fazer uma cirurgia, tomar uma cápsula que eu consiga eliminar esse peso’’. Esse é o problema da maioria das pessoas e vemos isso nas estáticas que mostram que mais da metade da população está com sobrepeso e obesidade. São dois aspectos importantes: a população engordando e a busca de recursos que solucionem esse problema. Isso afeta muito a atividade do nutricionista porque tem todo um marketing informando essa mágica. Basta abrir o Facebook, ou o Instagram que são muitas promessas. Já o nutricionista tem o conhecimento para orientar de acordo com o que a ciência recomenda.

saudegaucha.com – Em termos de saúde coletiva, como o nutricionista pode contribuir para que tenhamos uma população mais sadia?
Jacina Conceição dos Santos – No trabalho de atendimento, esclarecendo, informando e orientando as pessoas sobre uma alimentação adequada. De uma forma geral, para a coletividade, nós recomendamos muito os princípios do Guia Alimentar para a População Brasileira, lançado em 2014, que representou uma mudança de paradigma, de orientação alimentar para a coletividade. Antes, o foco era grupos de alimentos: o que pode, o que não pode. Já o guia atenta mais para questões comportamentais e clínicos. O guia apresenta 10 passos para alimentação saudável, sendo que 6 deles envolvem comportamento, como comprar alimentos em locais que oferecem variedade produtos in natura ou minimamente processados, comer com regularidade e atenção e em ambientes apropriados. Evitar o consumo de alimentos superprocessados, aqueles empacotados e com um grande número de ingredientes, desenvolver e habilitar habilidades culinárias, planejar compras de acordo com aquilo que vai consumir. Usar alimentos locais também é outro elemento. O último passo é ser crítico quanto as informações e orientações recebidas sobre alimentos. É bem diferente do que uma simples afirmação “você tem que comer tantos gramas de carne”. O comportamento consciente leva a pessoa a refletir sobre o que ela está adquirindo e o que tem ingerido.

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Vínculo comunitário e vivência social https://www.saudegaucha.com/entrevista/terapia-criada-no-ce-prioriza-vinculo-comunitario-e-vivencia-pessoal/ https://www.saudegaucha.com/entrevista/terapia-criada-no-ce-prioriza-vinculo-comunitario-e-vivencia-pessoal/#respond Wed, 05 Dec 2018 11:38:38 +0000 https://www.saudegaucha.com/?p=822 Em contato com moradores de uma favela de Fortaleza (CE), o médico psiquiatra Adalberto Barreto percebeu que parte daqueles que tentavam minimizar os efeitos da ansiedade e da depressão consumindo remédios psicotrópicos precisava reestabelecer os vínculos comunitários e ser acolhida em um ambiente onde pudesse partilhar sofrimento e inquietação. “Cheguei com dois estudantes de medicina […]

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Em contato com moradores de uma favela de Fortaleza (CE), o médico psiquiatra Adalberto Barreto percebeu que parte daqueles que tentavam minimizar os efeitos da ansiedade e da depressão consumindo remédios psicotrópicos precisava reestabelecer os vínculos comunitários e ser acolhida em um ambiente onde pudesse partilhar sofrimento e inquietação.

“Cheguei com dois estudantes de medicina da Universidade Federal [do Ceará] e não sabia o que fazer. Uma senhora nos contou que não conseguia dormir e pediu um remédio que não tínhamos para lhe dar. Quando eu ia prescrever um medicamento, ela disse que não tinha dinheiro nem para comprar comida para os filhos, quanto mais para remédios caros. Me dei conta de que eu estava agindo da forma como estava acostumado a atuar no hospital”, relembra o também teólogo e antropólogo cearense, a quem a experiência ensinou que a “a carência gera competência”.

“A mulher começou a contar sua história, a chorar. Veio outra que a amparou dando-lhe um lenço; uma outra que começou a partilhar uma experiência pessoal parecida. Fui vendo que o que aquelas mulheres tinham ido buscar era apoio, e não necessariamente um remédio. Vi que elas saíam satisfeitas com o que as outras pessoas tinham lhes propiciado”. Assim, surgiu a Terapia Comunitária Integrativa (TCI).

Trinta e um anos depois, a metodologia está presente em 25 países, segundo Barreto. Em 2017, foi incluída no rol das Práticas Integrativas Complementares do Sistema Único de Saúde (SUS). Também foi incorporada aos cursos de capacitação em prevenção do uso de drogas oferecidos pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad).

“Na maioria das vezes, a pessoa tem um sofrimento a ser acolhido e que não necessariamente é consequência de uma patologia que precisa ser medicada”, destacou Barreto em entrevista exclusiva à Agência Brasil durante rápida passagem pela capital federal.

No último sábado (1º), ele participou do 5º Encontro de Terapeutas Comunitários do Distrito Federal, promovido pelo Movimento Integrado de Saúde Comunitária (Mismec-DF), instituição sem fins lucrativos criada em 2002 e reconhecida pela Associação Brasileira de Terapia Comunitária (Abratecom). Na página da associação na internet, é possível consultar os endereços de todas as rodas de terapia comunitária existentes no país, bem como as instituições que capacitam os terapeutas –– voluntários que conduzem as “rodas” gratuitas que visam a resgatar a autoestima e favorecer os vínculos comunitários.

Apenas a Universidade Federal do Ceará, instituição na qual ele é professor, já certificou cerca de 37 mil terapeutas comunitários.

Veja os principais trechos da entrevista concedida por Barreto à Agência Brasil:

Agência Brasil: O que é e como funciona a Terapia Comunitária Integrativa?
Adalberto Barreto: A TCI é um espaço comunitário aberto a todos interessados, onde as pessoas se encontram para compartilhar experiências de vida, soluções para algo que as inquieta e, sobretudo, para construir vínculos solidários. É terapêutico porque é um espaço de acolhimento caloroso; de escuta livre de julgamentos e para o estabelecimento de vínculos.

Agência Brasil: Mas o senhor mesmo adverte que não se trata de uma terapia de grupo, nem de um substituto para a terapia tradicional…
Barreto: A TCI não é uma panaceia. Não serve para tudo. É muito boa para casos em que a pessoa está se sentindo solitária, isolada, depressiva, já que permite que as pessoas criem vínculos, estabeleçam uma rede de apoio. Os grupos acolhem as pessoas em um clima de segurança graças ao qual elas se sentem à vontade para falar sem serem julgadas ou criticadas. Isso permite que as pessoas deem visibilidade a suas dores, reduzindo o stress. Quando uma pessoa decide falar sobre algo que a aflige, sempre há outras pessoas presentes que vivem ou viveram uma situação parecida e que se dispõem a partilhar suas experiências e as estratégias que adotam ou que usaram para lidar e superar a situação, sem dar conselhos. Isso não só faz bem às pessoas que falam, como demonstra que se a comunidade tem problemas, também tem soluções para esses problemas. A tarefa da terapia comunitária é criar este espaço que nos permita descobrir juntos que soluções são estas.

Agência Brasil: Como ela surgiu?
Barreto: A metodologia nasceu há 31 anos e, desde então, vem sendo desenvolvida. Tenho um irmão [o advogado Airton Barreto] que fazia um trabalho em direitos humanos numa favela de Fortaleza [a Pirambu, então, a maior favela do estado]. Ao ver que muitos moradores desta comunidade tinham problemas como insônia, depressão, tristeza, e procuravam o Centro de Direitos Humanos em busca de remédios para controlar esses problemas, ele pediu a minha ajuda. Eu trabalhava no Hospital das Clínicas, onde não havia como atender a todos. Um dia eu sugeri que ele reunisse as pessoas interessadas para que nós as atendêssemos na própria comunidade. Já no primeiro encontro, havia cerca de 30 pessoas, todas pedindo remédios psicotrópicos. Entre elas, uma senhora que disse não ter dinheiro para comprar o medicamento. Como não tínhamos remédio conosco, começamos a escutar as pessoas. Eu então percebi que, na maioria dos casos, a pessoa tinha mais um sofrimento a ser acolhido do que uma patologia a ser tratada.

Agência Brasil: Que tipo de sofrimento?
Barreto: Muitos moradores da favela eram migrantes que, ao se mudar para Fortaleza, tinham perdido os vínculos com sua terra, com vizinhos e amigos. Padeciam com a perda de afetos, sentindo-se inseguras. Pareceu-me que o tratamento consistia em reconstruir estes vínculos. Então, me veio a ideia de que, se existem hospitais para tratar das patologias, das doenças, por que não criar espaços para acolhermos a dor da alma usando os recursos da própria cultura local? Superados os desafios iniciais, criamos, na própria favela, um espaço de reposição energética onde as pessoas iam para se encontrar, se abraçar, falar na primeira pessoa, ser ouvidas, estabelecer vínculos. Um ambiente alegre onde não há julgamentos nem críticas, onde as pessoas cantam, se tocam.

Agência Brasil: O senhor diz que a terapia comunitária permite a intervenção nos determinantes sociais da saúde. O que significa isto?
Barreto: A terapia comunitária não trabalha com a patologia, [não intervém] na doença. Este é o papel dos profissionais da saúde, a quem compete dispensar cuidados clínicos. Nós oferecemos o cuidado solidário. Acolhemos a quem sofre buscando prevenir as doenças. Por isso, toda pessoa pode ser uma cuidadora ou um terapeuta comunitário. Além de deter um saber, o que ela faz é acolher o sofrimento, que pode ou não estar ligado a uma doença. Evidentemente, quando se depara com uma patologia, o terapeuta comunitário deve orientar a pessoa a procurar um hospital, psicólogo ou o profissional apto a lidar com a patologia, mas também neste aspecto, ele acaba promovendo a saúde.

Agência Brasil: Como é a formação de um terapeuta comunitário?
Barreto: A formação dura cerca de um ano e é dividida em módulos. Os terapeutas em formação têm de trabalhar sua própria história de vida, suas experiências, pois a terapia comunitária é muito mais uma postura do que um método. Um terapeuta comunitário é incentivado a ser o primeiro a se favorecer da sua formação, porque compreendemos que, beneficiando a si próprio, ele acaba beneficiando outras pessoas próximas.

Agência Brasil: Mas é exigida alguma formação ou experiência prévia?
Barreto: Não. Porque o terapeuta comunitário não lida com a patologia, não diagnostica, não analisa, não julga ou interpreta sintomas. É uma metodologia muito simples, com a qual a pessoa vai aprender a escutar, fazer perguntas, respeitar as diferenças e observar as regras para que a roda não se torne um espaço de manipulação ideológica. Além disso, temos notado que é comum cuidadores darem melhor aquilo que não receberam, ou seja, a carência gera competência. Pessoas que estão trabalhando em prol de uma cultura de paz são aquelas que conheceram a violência na própria carne, na família, ou em seu contexto social.

Agência Brasil: Além da valorização dos recursos comunitários e individuais, quais os principais pressupostos desenvolvidos ao longo de três décadas?
Barreto: O de que qualquer pessoa, independentemente do nível socioeconômico e cultural, detém um saber que pode ser útil aos outros. Um saber que vem da experiência de vida. Cada vez que uma pessoa supera um problema, constrói um saber que, na maioria das vezes, é esquecido se não for compartilhado. Na terapia comunitária, esse saber é socializado. Por isto, uma das regras das rodas é que as pessoas falem de si sempre na primeira pessoa, contando algo que vivenciaram. O que nos interessa quando perguntamos se alguém mais viveu ou está vivendo algo parecido é a estratégia que cada um adotou para superar a questão. Isso vem à tona na forma de relato, e não de conselho ou discurso. Ao fim do encontro, a pessoa que sugeriu o tema leva consigo, para refletir, várias possibilidades de lidar com o problema

Agência Brasil: A norma é que as rodas sejam sempre gratuitas e abertas a todos os interessados?
Barreto: Geralmente tem sido assim.

Agência Brasil: Quais os temas mais frequentemente sugeridos para debate?
Barreto: Primeiro, o estresse causado por medo, raiva e toda sorte de emoções. Em segundo, os conflitos ou questões familiares. Depois, a solidão, violência e a dependência a diversas substâncias.

Agência Brasil: Além dos depoimentos dos próprios frequentadores, há estudos acadêmicos indicando a eficácia da metodologia?
Barreto: Entre 2004 e 2012, realizamos ao menos três pesquisas em conjunto com o Ministério da Saúde e com a Secretaria Nacional Antidrogas [Senad]. Obtivemos resultados indicando que mais de 80% das pessoas que chegavam em busca de um remédio, de um especialista, resolveram os seus problemas apenas com a terapia comunitária. Isso demonstra que a grande maioria estava precisando apenas de alguém que as acolhesse, que as escutasse. A minoria precisou ser encaminhada para um especialista. Na capacitação que oferecemos junto à Senad, vimos que, às vezes, ao deixar a internação, o viciado em drogas se volta para a mesma rede [de conhecidos], visitando os mesmos amigos, os mesmos lugares. Aí, tem uma recaída. Já onde há terapia comunitária, se ele começa a frequentar as rodas uma vez por semana, vai criando novas redes, com novos amigos, e isso reduz muito os riscos de recaída.

Agência Brasil: Em 2017, a terapia comunitária foi incluída no rol das Práticas Integrativas Complementares, do SUS. Isso reforçou o caráter de institucionalização da metodologia. Com isso, onde já é possível encontrar rodas comunitárias e como é feita a formação de terapeutas?
Barreto: No Brasil, temos, hoje, 42 polos formadores. Só pela Universidade Federal do Ceará já foram certificados 37 mil pessoas. Em toda a América Latina, cada país tem ao menos um polo formador. No total, a terapia comunitária está sendo aplicada em 25 países. Na Europa, por exemplo, estamos capacitando trabalhadores da Cáritas italiana que está recebendo migrantes africanos. Rodas de terapia comunitária estão acontecendo nas paróquias italianas que têm recebido esses imigrantes.

Agência Brasil: Qual é, a seu ver, a maior contribuição da terapia comunitária?
Barreto: Aprender a conviver, não é fácil. Sobretudo a conviver com as diferenças. E a terapia comunitária tem proporcionado algumas respostas. Motivar as pessoas a partilharem suas experiências em um ambiente público e vê-las sendo aplaudidas, elogiadas, criando vínculos, é vê-las se empoderando. O que determina nossa ação é nossa visão de mundo. Se eu vejo estas pessoas como carentes, desenvolvo uma pedagogia de lhes dar, seja roupa, comida, água ou conselhos. Já se olhamos essas pessoas como quem também possui as soluções de que necessitam, então estamos construindo algo coletivo.

Fonte: Agência Brasil

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Em entrevista à ABIA, pesquisadora Lígia Kerr fala sobre a desinformação do jovem gay a respeito risco de infecção por HIV https://www.saudegaucha.com/entrevista/em-entrevista-a-abia-pesquisadora-ligia-kerr-fala-sobre-a-desinformacao-do-jovem-gay-a-respeito-risco-de-infeccao-por-hiv/ https://www.saudegaucha.com/entrevista/em-entrevista-a-abia-pesquisadora-ligia-kerr-fala-sobre-a-desinformacao-do-jovem-gay-a-respeito-risco-de-infeccao-por-hiv/#respond Fri, 30 Nov 2018 11:24:33 +0000 https://www.saudegaucha.com/?p=710 A professora de epidemiologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Lígia Kerr, coordenou, pela segunda vez em sete anos, um estudo em 11 capitais brasileiras, além de Brasília, com foco na vigilância biológica e comportamental de jovens. O resultado foi publicado na revista internacional Medicine e revelou dados preocupantes. Houve um aumento da prevalência do […]

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A professora de epidemiologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Lígia Kerr, coordenou, pela segunda vez em sete anos, um estudo em 11 capitais brasileiras, além de Brasília, com foco na vigilância biológica e comportamental de jovens. O resultado foi publicado na revista internacional Medicine e revelou dados preocupantes. Houve um aumento da prevalência do HIV entre homens que transam com homens. De acordo com a pesquisa, na faixa etária entre 15 e 19 anos, triplicou a taxa de soropositivos (de 2,4 para 6,7 casos por 10 mil habitantes) e entre 20 e 24 anos o índice dobrou (de 15,9 para 33,1 casos por 10 mil habitantes). Dentre os entrevistados, 83,1% se declararam gays, 12,9% heterossexuais ou bissexuais e 4% se identificaram como ‘outros’. Do total, 75% transam apenas com homens.

A pesquisa também revelou que o uso de aplicativos para agendar encontros entre jovens gays cresceu 400% no período 2009-2016. De acordo com Kerr, em entrevista exclusiva à Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), publicada em 9 de agosto, há uma desconexão na forma como os jovens gays que usam estes aplicativos se sentem quando em situação de risco de infecção pelo HIV (sem o uso da camisinha). Contraditoriamente, afirmam estar mais seguros. Para Kerr, as comunidades mais afetadas precisam se apropriar do conhecimento gerado pela pesquisa para decidirem o melhor caminho que devem percorrer. “Por mais doloroso que possa ser, se você não conhece o que acontece com você, como terá o poder de mudar?”. Vale lembrar que o Brasil adotou a Profilaxia Pre-Exposição (PrEP) somente em 2017.

Confira a entrevista completa:

ABIA: Na sua opinião quais são os dados mais relevantes desta pesquisa, coordenada pela senhora, que entrevistou 4.176 homens em 11 capitais e em Brasília?

LIGIA KERR: Já esperávamos que haveria um crescimento da aids já que o primeiro estudo feito em 2009 revelava um dado bem alto. Se somarmos os soropositivos desta pesquisa mais os que, embora soropositivos, não quiseram fazer o teste, tínhamos 12.1%. E neste período (entre 2009 e 2016) muita coisa aconteceu. Achamos vários dados que nos deixaram bastantes apreensivos. Um deles foi o crescimento da aids de 12.1%, em 2009, para 18.4%, em 2016. E também a sífilis, que cresceu três vezes, algo em torno de 9% para 27%. Este dado mostra haver uma queda acentuada no uso do preservativo. Esta queda, principalmente entre jovens, nos preocupou bastante.

Houve um aumento extraordinário da busca de parceiros por essas novas mídias como Grinder, Hornett ou Tinder e WhatsApp. Estudos internacionais já demostraram que as pessoas que buscam esses sites têm mais relações, mais parceiros e mais relações sem camisinha. E, contraditoriamente ao fato de estarem sob maior risco de aids e de infecção, se sentem mais seguras. Isto revela uma desconexão entre o que de fato acontece e o que elas pensam que acontece com elas. Outro dado que nos chamou a atenção foi o crescimento da violência física e a da discriminação e do estigma. É um período relativamente curto (entre 2009 e 2016) para um impacto tão grande nesta população. É preciso que os grupos mais afetados olhem estes dados profundamente e discutam entre si, com as ONGs e com as redes para compreender como vão lidar com isso.

ABIA: A senhora mencionou um crescimento da violência: já teria este dado disponível que possa revelar como em estava em 2009 e como vocês encontraram em 2016?

KERR: Ainda não. Mas posso afirmar que a discriminação cresceu em torno de 140%. Sobre o uso dos aplicativos, o crescimento foi em torno de 400%. Na pesquisa qualitativa, notamos o discurso que de que os ambientes de socialização gays (bares, boates, etc) “praticamente não existem mais” pois os encontros são marcados pelo WhatsApp. O uso de redes sociais deverá ser uma estratégia a ser usada na prevenção. A população precisa tomar conhecimento sobre essas informações. Por mais doloroso que possa ser, se você não conhece o que acontece com você, como terá o poder de mudar?

ABIA: A senhora está afirmando que as comunidades afetadas devem se apropriar dessas informações e encontrar ali suas soluções.

KERR: Exato. É muito difícil a gente de fora dizer o que o outro deve fazer. Tenho notado o impacto que este estudo tem causado. Há as reações homofóbicas nos sites que publicaram a pesquisa. Surgem discursos dos mais absurdos. Essas comunidades têm que se apoderar deste estudo e encontrar estratégias sobre como vão superar esta etapa. Outro dia alguém me disse que erramos ao mostrar caras tão felizes fazendo o tratamento porque teve AIDS. Mas não dá para estar sorridente, feliz e saltitante por que você tem aids, não é? A aids não é uma doença trivial. É uma doença que é para sempre, não tem cura, e tem milhares de efeitos colaterais. Para os jovens, a aids não existe mais, não assusta mais. E esta mudança nos impressionou bastante. Entrevistamos a faixa etária de 18 anos para cima. E falavam também dos jovens abaixo de 18 anos que entram num mundo onde não há a repressão da maneira que as outras gerações enfrentaram para assumir a homossexualidade. E tem os que dizem que não querem entrar nesta caixinha. Perguntamos: “como você se identifica?”, responderam “não me identifico com nada. Posso ter vontade de ter relações com homem ou com mulher”. Isto dificulta muito a forma de se aproximar desta população. Este é outro desafio para quem quer trabalhar com estes grupos.

ABIA: A senhora mencionou reações homofóbicas e ao mesmo tempo disse que a pesquisa anterior não chamou tanta atenção quanto agora. A que a senhora atribui essa mudança?

KERR: Em 2009, por exemplo, havia um apoio muito grande da sociedade civil que, naquela época, estava muito próxima do governo. A sociedade civil participou do processo de pesquisa e, entre outras coisas, fez o monitoramento quando surgiram problemas para obter informações em determinado local. Era um momento de muito trabalho conjunto entre sociedade civil e o governo. O que aconteceu logo em seguida foi o início da falta do apoio financeiro e político para as ONGs. Isto veio com o crescimento do setor conservador. Este cenário aconteceu já dentro do governo Dilma que tinha esta ideia de que a negociação abriria espaço para fazer mais. Uma das negociações foi com bancada de congressistas em Brasília que, em 2015, foi denominada “BBB” (bala, boi e Bíblia). Um dos efeitos disso foi a censura. Houve um episódio durante um Carnaval: o governo federal divulgou uma propaganda para comunidade HSH (homens que fazem sexo com homens) e 24h depois estava banida da TV. Fatos como este “criaram” um momento muito conservador que deram vazão a esta onda de ódio.

ABIA: Voltando para a pesquisa e compreendendo todas as limitações metodológicas, como esses números refletem as condições estruturais que são enfrentadas por estes homens, com destaque para os HSH e os jovens gays?

KERR: Estudar esta população é sempre difícil. Usamos metodologias especiais como a que chamamos de “em redes sociais”. Também não buscamos somente a pessoa que se auto identifica como gay. Nossa solicitação foi que indicassem quem têm relação sexual com homens, independente da identidade sexual que assume. A partir disso, exploramos o percentual destes homens que tiveram relações sexuais com mulheres. De qualquer forma, é preciso olhar os dados com cuidado. As metodologias podem trazer uma visão mais enviesada. Mas é importante frisar que acreditamos que a nossa pesquisa captou com relativa segurança o que está acontecendo na sociedade. Existem fatores relevantes que explicam o aumento dos casos de aids. Um exemplo é o corte brutal de recursos para a saúde pública. Outro é o desaparecimento das ONGs. Em abril de 2016, quando começamos este trabalho, fui procurar a ABIA, e quase entrei em depressão. Era um desanimo total por falta de recursos financeiros, falta de estimulo diante de tudo que estava acontecendo. Em vários lugares nossa pesquisa obteve muito pouco apoio das ONGs, completamente diferente de 2009.

ABIA: A ABIA, outras instituições da sociedade civil organizada e o movimento aids têm insistido que a prevenção é a principal saída para retomarmos o caminho de uma resposta eficaz para a epidemia. Para nós, os dados da sua pesquisa reforçam essa perspectiva. A senhora concorda com essa leitura?

KERR: Concordo plenamente. Não acredito que o fim da aids será alcançado com um discurso centrado em medicação. É preciso ter uma estratégia que inclua medidas preventivas e que atinja todas as áreas da sociedade, promovendo o cuidado de si, o cuidar do outro. Precisamos de uma prevenção que possa fazer com que as pessoas compreendam que isso é parte de um processo preventivo, que não se inicia e nem termina na medicação. A pessoa que vive com HIV também precisa entender isso, ou não vai entender porque as pessoas discriminam, porque não o/a aceitam, porque batem ou porque matam. É preciso entender a sociedade onde esse fenômeno está sendo produzido e ter um outro olhar solidário para este outro ao seu lado.

ABIA: Olhando o passado e os dias de hoje, e buscando entender o que funcionou num momento lá atrás e o que deixou de funcionar. Será que é interessante retomar o passado no sentido de pensar em novas respostas ou recomeçamos do zero? Vale pensar nesta proposta que a senhora fez no início de utilizar ferramentas como WhatsApp?

KERR: Tem muita coisa que podemos resgatar. Uma delas é o trabalho feito perto da comunidade. Nosso estudo qualitativo feito em 2016 deve revelar muita informação interessante para aprendermos de novo o quê e como fazer. É um erro o governo trabalhar à parte da comunidade. Parece que o governo está interagindo com esses aplicativos, mas não pode ser somente por aí. É preciso usar essas ferramentas para levar as pessoas para alguns lugares, mandar mensagens positivas e se aproximar dessas pessoas. Também é preciso compreender bem os grupos. No estudo de 2009, fizemos uma entrevista que me chocou bastante. Tentamos entender o porquê a pesquisa só tinha entrevistado indivíduos de classe C, D e E. Para isso, convidamos alguns conhecidos gays da classe A e B e perguntamos por qual a razão não haviam participado da pesquisa, se foram chamados e se sim, porque não participaram. As declarações foram surpreendentes. Naquele espaço entre quatro paredes diziam: “Eu não me misturo com essa gente”; “Isso é coisa para pobre”; “Eu pego um avião nos finais de semana com meus amigos e vou para a Europa não quero nada com esta população”. Isso, em 2009! Imagina hoje!!

ABIA: Tem um dado interessante que a pesquisa traz que em relação a Porto Alegre que registra uma taxa muito alta de infecção pela HIV e é diferente de outras cidades da região Sudeste. Como se explica isso?

KERR: Tudo o que acontece na região Sudeste pesa nos dados nacionais. A epidemia em São Paulo tem atingido um ápice e os dados sobre os HSH já mostraram um aumento. Mas quando a gente coloca esta epidemia do Sudeste diante da epidemia do restante do país, vai aparentar estar estável. Se olharmos os dados das regiões Nordeste e Norte, veremos a epidemia crescendo. Já sobre Porto Alegre, têm alguns estudos em andamento para tentar explicar as diferenças tão grandes apresentadas nesta cidade. Apontam que a alta taxa de infecção por aids é por conta da desorganização dos serviços de saúde locais ou é em decorrência do uso de drogas intravenosas. Há também os estudos que apontam os fatores ligados a serviços, ou seja, mostram as dificuldades que os serviços têm de funcionar adequadamente. Além disso, o tipo de vírus que circula por lá difere do vírus que circula em outros lugares do Brasil, mostrando que é uma epidemia diferente.

ABIA: Pode explicar melhor sobre este tipo de vírus?

KERR: O vírus da aids tem uma mutação. Quando se estuda um vírus geneticamente, é possível reconstruir a história dele. Você consegue saber porque há uma modificação. O vírus que entrou via sanguínea em usuários de drogas veio de um outro grupo social, logo carrega uma história genética diferente. Se vier pela via sexual, tem histórico genético de outro grupo de pessoas.

ABIA: No artigo da ABRASCO, a senhora se mostrou bastante pessimista em relação às ações que têm sido implantadas pelo governo depois do golpe em 2016. Neste cenário sombrio, o que a sociedade civil organizada e o movimento aids podem fazer neste momento?

KERR: Acho que não devemos pensar somente nos HSH, mas também nos negros e nas mulheres. E, sendo eu uma pessoa que tem uma deficiência física, penso também nas pessoas que tem alguma deficiência. Todos somos seres humanos, iguais em nossa essência e com necessidades diferenciadas que precisam ser atendias. A discussão precisa mudar para um debate mais amplo. É preciso enxergar que o negro morrendo na favela é igual a quem está morrendo após ser espancado por um skinhead. São processos aparentemente diferentes, mas na sua essência são semelhantes. Neste momento o tratamento corre risco, pois o SUS é responsável pela maioria destas pessoas. Quando um indivíduo, que é homossexual, ataca o SUS, ou ataca um governo mais de esquerda, está atacando o sistema que vai tratar dele. Sem o SUS, dificilmente alguém vai sobreviver.

ABIA: A senhora sugere que a sociedade civil organizada e o movimento aids possam ampliar o debate com a sociedade a fim de compreender todos os fatores que incidem diretamente sobre a vida do brasileiro?

KERR: Exato, é preciso ampliar o debate. O discurso da esquerda tem que incluir o debate do negro e do gênero. A esquerda tem que incluir essas pautas e essas pessoas tem que incluir as pautas genéricas! Não é possível lutar pela democratização da sociedade sem ampliar o debate, sem a redução da discriminação contra os HSH, sem a discussão das questões de gênero, sem a discussão das questões raciais.

ABIA: E dá para projetar os próximos anos a partir dos dados deste estudo que a senhora coordenou?

KERR: Tudo depende do que vai acontecer nesta eleição. Às vezes sou tão pessimista que a todo o momento acho que a gente ainda pode terminar sem eleições em outubro. Outras, dou vez ao meu lado otimista e penso que talvez tenhamos grandes chances de eleger um político de esquerda. Se isto acontecer, esta pessoa vai ter que tomar posse. Não podemos deixar um segundo, um terceiro golpe acontecer, senão a coisa vai degringolar completamente. Também não podemos menosprezar o poder que a direita concentra. Temos que lutar.

ABIA: Para finalizar, a senhora gostaria de acrescentar algo?

KERR: Esta pesquisa produziu um vasto material. Não deu para falar de tudo porque ainda não foi possível analisar todos os dados. Mas tudo o que já conseguimos analisar até aqui nos deixou profundamente preocupados. Há algo que esqueci de comentar que foi uma mudança positiva: o aumento do número de pessoas que nunca se testaram, mas que estão procurando fazer o teste. Ainda é muito grande o número de quem nunca se testou na vida. Para muitos, participar da pesquisa resultou na primeira vez que se testaram. É preciso haver uma mudança radical de mentalidade, compreender o processo como um todo e não um pedacinho.

Fonte: ABIA 

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