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Entrevista com Jacira Conceição dos Santos, sobre os desafios dos nutricionistas na atualidade

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A partir de hoje (7), nutricionistas do Rio Grande do Sul estarão reunidos no “1º Encontro de Nutrição do CRN-2” e no “2º Me formei, e agora?”, que acontecem no Centro Universitário Metodista IPA (Rua Coronel Joaquim Pedro Salgado, 80). Em entrevista ao saudegaucha.com, a presidente do Conselho Regional de Nutricionistas 2ª Região (CRN-2) Jacira Conceição dos Santos destaca a importância da especialização dos profissionais, com foco em nichos de atuação. Ela manifesta contrariedade ao Projeto de Lei 10981/2018 – que propõe alterações na Lei 8.234/91 de regulamentação da profissão de Nutricionista – que daria a médicos nutrólogos e endocrinologistas a prerrogativa de prescrever dietas. Para a presidente, há muita informação desencontrada nas redes sociais, com “promessas milagrosas” de emagrecimento, e o nutricionista é o profissional adequado para orientar a alimentação correta de acordo com o que a ciência recomenda.

saudegaucha.com – Quais são os resultados esperados com os eventos?
Jacina Conceição dos Santos – Esse é o primeiro encontro que fazemos com essa abordagem de temas técnicos. Normalmente os conselhos fazem essas atividades para divulgar seus resultados, e ações de representações. Historicamente, todos os conselhos desenvolvem uma interlocução com seus profissionais, mas os tempos estão mudando. Hoje sentimos a necessidade de realizar uma educação continuada com os profissionais, baseada na evolução de mercado, e dos novos nichos que surgem. Muitas vezes as próprias instituições formadoras não conseguem acompanhar, então nosso conselho, enquanto instituição que tem como competência orientar e fiscalizar os profissionais, deve desenvolver meios e instrumentos para esclarecer conduta profissional adequada.

saudegaucha.com – Quais serão os temas mais importantes da programação?
Jacina Conceição dos Santos – Serão as novas ferramentas para a atuação do profissional, de modo que ele se destaque e possa apresentar diferencias no seu trabalho, por meio de conhecimentos e atividades complementares. São conhecimentos além do saber especializado que o nutricionista tem, como o tema que abrirá o evento, tratando das ferramentas para a abordagem do comportamento alimentar. O objetivo é podermos avaliar e intervir para ajudar as pessoas a terem um comportamento alimentar adequado, porque muitas vezes a questão foge do que costumamos dizer de força de vontade ou capricho para fazer a alimentação que o nutricionista sugere. Existem ferramentas desenvolvidas e cientificamente comprovadas que podem alterar o comportamento alimentar. A área de atuação do nutricionista é o comportamento alimentar. Quando é identificado que esse comportamento é afetado por algum distúrbio da área psicológica da pessoa, então ele pede para pessoa também consulte com um psicólogo, ou um psiquiatra. Teremos uma técnica americana (Mindful Eating), além de Coaching, que pode ser usado em várias áreas da vida do pessoal, e o método cognitivo comportamental, que é o mais tradicional.

“O objetivo é podermos avaliar e intervir para ajudar as pessoas a terem um comportamento alimentar adequado, porque muitas vezes a questão foge do que costumamos dizer de força de vontade ou capricho para fazer a alimentação que o nutricionista sugere.”

saudegaucha.com – Quais seriam as atividades que mais teriam relação com a temática principal do evento?
Jacina Conceição dos Santos – É a atividade de nutrição clínica, em que o profissional orienta a alimentação de uma forma mais específica podendo ser, também, para a coletividade, como por exemplo grupos em que se desenvolvem atividades básicas de saúde, como hipertensos e diabéticos. Temos que usar essas ferramentas de manejo grupos, mostrar se há desvios de comportamento que podem ser melhorados com essas técnicas.

saudegaucha.com – Qual é o principal desafio na atualidade da atuação do nutricionista?
Jacina Conceição dos Santos – Como ocorre em toda profissão, a competição é bem mais intensa que 5 ou 10 anos atrás. O nutricionista deve buscar especialização. Com a formação básica, com a formação generalista ele pode atuar em várias áreas como numa escola infantil, no que chamamos de instituição de longa permanecia de idosos, numa empresa gerenciando a produção de refeições. É bastante vasto o leque de conhecimento que o nutricionista tem na universidade que lhe permite uma atuação básica. Depois da formação, o profissional deve buscar a especialização seja na área de planejamento, gerenciamento, em áreas clínicas – doenças crônicas, oncologia, entre outras. O esporte também é muito procurado pelos nutricionistas. Todos esses exemplos requerem especialização. O profissional sai da faculdade habilitado para atuar em diferentes áreas, mas ele tem que ter o foco no que mais se identifica. Um exemplo é a área clínica, que é um atendimento individualizado, e é a grande preferência dos nutricionistas. Como órgão fiscalizador, o objetivo do conselho é proteger a saúde da população através de um atendimento correto pelo profissional. Por isso é tão importante a função orientadora, porque o objetivo final é a saúde da população. Em julho foi lançado um novo marco regulatório na área de prescrição de suplementos, tanto suplementos vitamínicos minerais, como fitoterápicos, e os chamados nutracêuticos, que são as substancias isoladas de alimentos, como ômega 3, resveratrol, betacaroteno. Assim, houve uma modificação grande em relação às quantidades de prescrição, do que é de restrição médica. Isso também é algo que está requerendo atenção e teremos uma palestra especialmente sobre a atualização esse tema legal.

“Como ocorre em toda profissão,a competição é bem mais intensa que 5 ou 10 anos atrás. O nutricionista deve buscar especialização.”

saudegaucha.com – Qual a posição do Conselho sobre o Projeto de Lei 10981/2018, que propõe alterações na Lei 8.234/91, que regulamenta a profissão de Nutricionista?
Jacina Conceição dos Santos – Somos totalmente discordantes desse PL. O médico não tem capacitação para elaborar um plano alimentar. O médico nutrólogo e o endocrinologista podem fazer a prescrição de dietoterápica, que são a quantidade de nutrientes que a dieta tem: dizer quantos gramas de proteína, sódio, cálcio ou ferro aquele individuo precisa, baseado em exames de diagnóstico. Agora, transformar esses nutrientes em comida e estabelecer quais os componentes adequados no café da manhã, almoço, jantar, isso o médico não sabe fazer, não aprende. Isso é o nutricionista que estuda durante os quatro anos de sua formação: transformar as necessidades nutricionais em alimento, em comida no prato.

“Agora, transformar esses nutrientes em comida e estabelecer quais os componentes adequados no café da manhã, almoço, jantar, isso o médico não sabe fazer, não aprende. Isso é o nutricionista que estuda durante os quatro anos de sua formação: transformar as necessidades nutricionais em alimento, em comida no prato.”

saudegaucha.com – Em tempos de acesso grande a meios digitais e a proliferação de notícias falsas, o que mudou na atuação do profissional de nutrição?
Jacina Conceição dos Santos – Há muitas informações desencontradas, muitas promessas milagrosas. O público busca alguma solução mágica, algo que está no ideário coletivo. Dizem “Eu engordei e quero emagrecer; quero tomar um chá, fazer uma cirurgia, tomar uma cápsula que eu consiga eliminar esse peso’’. Esse é o problema da maioria das pessoas e vemos isso nas estáticas que mostram que mais da metade da população está com sobrepeso e obesidade. São dois aspectos importantes: a população engordando e a busca de recursos que solucionem esse problema. Isso afeta muito a atividade do nutricionista porque tem todo um marketing informando essa mágica. Basta abrir o Facebook, ou o Instagram que são muitas promessas. Já o nutricionista tem o conhecimento para orientar de acordo com o que a ciência recomenda.

saudegaucha.com – Em termos de saúde coletiva, como o nutricionista pode contribuir para que tenhamos uma população mais sadia?
Jacina Conceição dos Santos – No trabalho de atendimento, esclarecendo, informando e orientando as pessoas sobre uma alimentação adequada. De uma forma geral, para a coletividade, nós recomendamos muito os princípios do Guia Alimentar para a População Brasileira, lançado em 2014, que representou uma mudança de paradigma, de orientação alimentar para a coletividade. Antes, o foco era grupos de alimentos: o que pode, o que não pode. Já o guia atenta mais para questões comportamentais e clínicos. O guia apresenta 10 passos para alimentação saudável, sendo que 6 deles envolvem comportamento, como comprar alimentos em locais que oferecem variedade produtos in natura ou minimamente processados, comer com regularidade e atenção e em ambientes apropriados. Evitar o consumo de alimentos superprocessados, aqueles empacotados e com um grande número de ingredientes, desenvolver e habilitar habilidades culinárias, planejar compras de acordo com aquilo que vai consumir. Usar alimentos locais também é outro elemento. O último passo é ser crítico quanto as informações e orientações recebidas sobre alimentos. É bem diferente do que uma simples afirmação “você tem que comer tantos gramas de carne”. O comportamento consciente leva a pessoa a refletir sobre o que ela está adquirindo e o que tem ingerido.

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