Saúde Gaúcha
Informação para gestores e profissionais de saúde.

- Publicidade -

- Publicidade -

Para ampliar o atendimento primário, país terá unidades de saúde até 22h

0

Por Charles Vilela, do saudegaucha.com

Nos próximos dias, o Ministério da Saúde deverá anunciar o projeto para a extensão no horário de funcionamento em unidades de saúde de todo o país que tenham grande fluxo de atendimento. O objetivo é facilitar e ampliar o acesso, a cobertura e a resolutividade na saúde primária. Os postos considerados elegíveis receberão um valor mensal do Governo Federal para bancar o novo serviço. Para isso, já estão reservados cerca de R$ 700 milhões, sendo R$ 150 milhões para serem aplicados este ano e o restante, R$ 550 milhões, para 2020. A outra parte o custeio deverá ser financiada pelo município interessado.

>> Com novo status, Atenção Primária será o eixo central na política de saúde do país

Desde março de 2017, Porto Alegre oferece o atendimento com horário estendido, batizado de programa Saúde Noite e Dia – uma proposta de campanha do prefeito Nelson Marchezan Júnior, que está servindo de projeto-piloto para a implantação da ação com alcance nacional. Atualmente, quatro unidades de saúde que funcionam até 22h e a meta é chegar a oito – acrescendo mais quatro unidades ao número atual – ainda em 2020.

Para o coordenador-geral da Atenção Primária na Secretaria da Saúde de Porto Alegre, Thiago Frank, se tantas pessoas se deslocam diretamente para o atendimento especializado, a atenção primária não está funcionando adequadamente
Para o coordenador-geral da Atenção Primária na Secretaria da Saúde de Porto Alegre, Thiago Frank, se tantas pessoas se deslocam diretamente para o atendimento especializado, a atenção primária não está funcionando adequadamente (Foto: Cristine Rochol/PMPA)

Os resultados dos dois anos da experiência gaúcha, que agora será incorporada pelo Ministério da Saúde como política nacional, são encorajadores. Um dos feitos mais significativo da proposta está na redução da busca por atendimento em serviços de média complexidade como as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e os prontos-socorros. “Termos um índice entre 70 e 80% de classificação de demanda azul ou verde (ambas consideradas de baixo risco) nestes serviços é um sinal de falência da atenção primária”, opina o coordenador-geral da área na Secretaria da Saúde de Porto Alegre, Thiago Frank. “Se tantas pessoas se deslocam diretamente para o atendimento especializado (pronto atendimentos ou prontos-socorros), sabendo que podem ter que esperar por tempos longos, a atenção primária não está funcionando adequadamente.”

Os casos sem gravidade contribuem significativamente para a lotação dos serviços de média complexidade. Algumas situações poderiam ser solucionadas plenamente numa unidade básica de saúde. Deste modo, o horário estendido surge como uma alternativa para esse problema, com a proposta de facilitar o acesso e oferecer acolhimento imediato. “Não há necessidade de agendamento prévio para consultar e isso dá agilidade para a solução dos casos agudos, pois nem sempre a necessidade é clínica, às vezes é administrativa, como a retirada de um atestado ou a renovação de uma receita”, destaca.

Proposta oferece um novo conceito para o acesso aos serviços de saúde
Numa primeira análise, a ideia de estabelecer um novo turno de atendimento pode parecer simples, mas um olhar mais apurado dos dados mostra que a iniciativa vai muito além de ampliar em algumas horas à noite o serviço nas unidades de saúde – que, via de regra, funcionam até 17h. E a principal delas está no fato de que as pessoas que trabalham durante o dia – percentual que representa a maior parte da força de laboral ativa – tenham uma disponibilidade maior para resolver suas demandas de saúde em turno distinto ao do horário em que trabalham, nesse caso, à noite. Além disso, o atendimento noturno não se restringe à população específica do território em que a unidade de saúde está instalada, regulação esta que ocorre no período diurno.

Segundo levantamento da secretaria, realizado em três unidades de saúde com horário estendido, entre dezembro de 2017 e março de 2018, o número de homens atendidos é superior em mais de 10% em relação aos atendimentos deste público realizados durante o dia, embora as mulheres continuem representando a maior parte da procura, e também se note um aumento da demanda do público feminino durante à noite. Estudos internacionais apontam que não há diferença quantitativa relevante em relação à procura de homens e mulheres por serviços de saúde até os 5 anos de idade – quando as mães são as responsáveis por facilitar o acesso – e após os 70 anos. Já em idade laboral a disparidade aumenta: mulheres procuram com maior frequência os serviços de saúde. A extensão de horário tem se mostrado uma alternativa interessante para nivelar essa desproporção.

Segundo a SMS de Porto Alegre, dados mostram que o percentual de homens procuram o serviço de saúde à noite é maior do que durante o dia
Segundo a SMS de Porto Alegre, dados mostram que o percentual de homens procuram o serviço de saúde à noite é maior do que durante o dia (Fonte: SMS Porto Alegre)

Já o absenteísmo – que é o não comparecimento em consultas agendadas –, neste caso é zero. Isso porque, no turno estendido, não há fichas ou agendamentos. O acolhimento é feito por ordem de chegada, mediante a disponibilidade da equipe. No caso de o usuário necessitar de um segundo atendimento – como o encaminhamento a um especialista ou a um exame – o processo também é feito na hora.

No horário noturno são oferecidos os mesmos serviços que a unidade de saúde dispõe durante o dia, mas itens como vacinas e testagem para sífilis e HIV, por exemplo, têm um acréscimo de procura à noite. Isso se explicaria pela tendência que as pessoas têm em procurar a unidade próxima para esse tipo de atendimento e por se sentirem menos expostas durante a noite. “É uma forma de se fazer uma testagem mais anonimizada, ou totalmente anônima, se houver interesse do usuário”, destaca Frank. Dados da SMS apontam que em uma das unidades, o Posto Modelo, que fica próximo ao centro da cidade e atende mais de 30 mil pessoas, nas quatro horas funcionamento à noite são feitos mais testes rápidos para HIV e sífilis do que nas outras dez horas de atendimento durante o dia.

Alto índice de satisfação e captação de novos usuários para primeiro acesso
Desde o início do serviço, as quatro unidades somam mais de 85 mil atendimentos para 44 mil pessoas, entre procedimentos médicos, de enfermagem, curativos, cirúrgicos e odontológicos. Frank estima que entre 15% e 20% desse público – algo entre 6,6 mil e 8,8 mil usuários – não teria procurado a unidade de saúde no horário tradicional de funcionamento, durante o dia. Do total de atendimentos, 69 mil (77,52%) foram feitos por profissionais com formação superior: 53 mil procedimentos médicos, 17 mil de enfermagem e dez mil de odontologia.

De acordo com o coordenador, muitas vezes o usuário tem dificuldade de definir com precisão se sua situação pela qual está passando é grave ou não, e não quer esperar o dia seguinte para buscar o atendimento temendo que os sintomas se agravem. Por isso, é comum a busca pelo pronto-atendimento durante à noite para casos de menor gravidade como diarreia, resfriado, gripe ou dor de cabeça. Esses casos geralmente são classificados de baixo risco e geram espera por atendimento que pode chegar a horas. Ele percebeu isso em conversas com pacientes na assistência que realizou de forma voluntária durante cerca de seis meses em unidade com horário diferenciado, quando foi possível compreender a percepção dos usuários em relação ao serviço. “É importante ressaltar que não se trata da ideia de o usuário procurar o lugar errado, mas de entendermos que a pessoa se direciona para onde ela encontra alternativa de atendimento. Se é somente determinado serviço que ela tem disponível naquele momento, é o que ela vai procurar”, avalia.

Uma pesquisa realizada nos três primeiros meses do serviço no Posto Modelo, um dos mais movimentados da cidade, a avaliação foi “boa” ou “ótima” para 92% dos entrevistados. Já o índice de resolutividade dos casos – em que a situação não precisou de um novo encaminhamento na rede pública de saúde – chegou a 89%. Durante o horário tradicional de atendimento, esse índice de solução dos casos não passa de 85% na mesma unidade.

Custo extra é bancado principalmente pelo município
Para estender o horário nas unidades de saúde, a Prefeitura de Porto Alegre teve que buscar mais profissionais para manter à noite o mesmo formato do atendimento que é realizado durante o dia. O custo extra com essas contratações vem, em parte, de recursos próprios, e, sempre que possível, da habilitação de equipes de Estratégia de Saúde da Família junto ao Ministério da Saúde. O município não tem encontrado dificuldade para contatar os profissionais para suprir a demanda extra de atendimento, como enfermeiros, auxiliares de enfermagem e dentistas. Facilidade que não acontece em relação aos profissionais médicos.

Para a escolha dos locais, dois critérios principais foram utilizados: ter uma estrutura física razoável ou adequada para acolher o tamanho da equipe – que é de pelo menos três profissionais –, e estar localizado em área de grande circulação de pessoas e com acesso fácil. As quatro unidades com o horário estendido estão localizadas em gerências distritais, que são a base de organização territorial da regionalização da saúde no município. As outras quatro unidades novas que estarão em funcionamento até o próximo ano deverão seguir esse mesmo perfil quanto aos critérios de escolha. A Secretaria da Saúde diz que, devido à demanda enorme de pessoas que têm buscado o atendimento estendido, pretende acelerar a inauguração dos demais serviços.

Proposta, que tem se mostrado eficaz, tende a modificar conceitos como o de territorialidade
A experiência aponta para a necessidade de uma reflexão da gestão pública de saúde, observando que, se existe a demanda, é importante que se oferte uma alternativa de atendimento. “A unidade com o turno estendido permite ajudar no cuidado, no nível de gravidade certo, quando a pessoa precisa e no local mais perto de sua casa”, resume Frank. Essa necessidade aponta, inclusive para uma reconstrução da lógica de atendimento limitado somente ao território, com o entendimento de que o acesso se dê mais baseado na relação onde a pessoa quer ou pode consultar, do que somente onde ela reside. “Creio que a Atenção Primária vá caminhar no sentido de termos listas de pacientes de acordo com a capacidade de acolhimento da unidade, do que essa limitação se dar somente por questões territoriais”, disse. “Essas pessoas podem morar em qualquer lugar na cidade, mas serem atendidas em outro de sua preferência, com a Vigilância em Saúde sendo feita por território.”

Para Frank, quando a pessoa busca o atendimento é porque ela realmente precisa; e as dificuldades para o usuário buscar atendimento são maiores durante o dia
Para Frank, quando a pessoa busca o atendimento é porque ela realmente precisa; e as dificuldades para o usuário conseguir o acesso são maiores durante o dia (Foto: Cristine Rochol/PMPA)

Assim, limitar o acesso apenas por critério de base territorial, pode burocratizar ou dificultar o acolhimento. “Quando a pessoa busca o atendimento é porque ela realmente precisa. Vejo que temos algumas barreiras de território, em certos casos uma dificuldade de relacionamento com o profissional, ou uma logística de vida difícil para o usuário”, disse. “Estas dificuldades se tornam maiores (para o usuário) durante o dia. Dependendo do tempo de espera, muitas vezes determinada consulta nem é mais necessária.”

Para o coordenador, a procura das pessoas pelo serviço será o principal marcador para que o governo federal possa medir a importância do projeto que será lançado nos próximos dias. “É uma proposta alinhada às melhores evidências e melhores práticas de atenção primária no mundo, algo que tem se mostrado extremamente positivo pelos resultados que temos obtido”, disse.

PROGRAMA NOITE E DIA – Porto Alegre tem quatro unidades do Programa Saúde Noite e Dia, com horário estendido até as 22h:
– Tristeza (Av. Wenceslau Escobar, 2442 – Tristeza)
– São Carlos (Av. Bento Gonçalves, 6670 – Agronomia)
– Modelo (Av. Jerônimo de Ornelas, 55 – Santana)
– Ramos (Rua K, 131 – Rubem Berta)

Leia também:

Envie um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.